Tradução: Vulthoom (C.A. Smith)

Havia em sua mente um único pensamento, uma resolução. A qualquer custo deveria quebrar as Garrafas, cujos gases liberados se espalhariam por Ravormos e mergulhariam os seguidores de Vulthoom — se não o próprio Vulthoom — em um milênio de sono. Ele e Chanler, sem dúvida, estavam condenados a compartilhar do sono, e para eles, não afetados pelo elixir secreto da imortalidade, com toda certeza não haveria despertar. Mas diante das circunstâncias era melhor assim, e o seu sacrifício concederia uma clemência de mil anos aos dois planetas. Aquela era a oportunidade e parecia improvável que algum dia houvesse outra.

Ergueu a clava de fungo petrificado, balançou-a para trás em um movimento de arco e bateu com toda força no ponto mais convexo do vidro. Houve um estrondo como de um gongo, sonoro e prolongado, e rachaduras em teia começaram a aparecer no receptáculo, de alto a baixo. Com o segundo golpe ele se rompeu de fora para dentro, com um som agudo e assustador quase como um grito articulado e a face de Haines foi soprada instantaneamente por um vento frio, suave como um suspiro de mulher.

Segurando a respiração para evitar a inalação do gás, voltou-se para a segunda Garrafa. Ela se quebrou ao primeiro golpe e outra vez ele ouviu um suspiro suave que saiu de dentro da rachadura.

Uma voz de trovão pareceu preencher a sala quando ele ergueu sua arma para atacar a terceira Garrafa.

— Tolo! Com este ato você condenou a si mesmo e ao seu companheiro terráqueo.

As últimas palavras se misturaram com o ruído do último golpe de Haines. Um silêncio sepulcral se seguiu e o distante murmúrio das engrenagens pareceu refluir e diminuir diante dele. O terráqueo olhou momentaneamente para as Garrafas rompidas e então, deixando cair o resto inútil de sua clava, reduzida a muitos fragmentos, saiu correndo daquela câmara.

Atraídos pelo ruído da ruptura, um número de Aihais tinha aparecido no salão principal. Eles corriam em círculos, sem sentido e desconcertadamente como cadáveres impelidos por um galvanismo que ia acabando. Nenhum deles tentou interceptar o terráqueo.

Se o sono induzido pelos gases chegaria lento ou rápido, Haines não tinha como saber. O ar das cavernas parecia não ter mudado, não que se pudesse notar: não havia nenhum odor, nenhum efeito perceptível em sua respiração. Mas enquanto corria ele sentiu uma discreta tonteira e um véu fino começou a se tecer em todos os seus sentidos. Parecia que diáfanos vapores se formavam no corredor e havia um toque de imaterialidade nas próprias paredes.

Sua fuga não tinha objetivo definido e nem destino. Como um sonhador em seu sonho, sentiu pouca surpresa quando se viu erguido do chão e levado pelo ar em uma levitação inexplicável. Era como se fosse presa em uma correnteza, ou carregado por nuvens invisíveis. As portas de uma centena de salas secretas, as entradas de uma centena de laboratórios misteriosos, tudo passou rapidamente e viu em breves lampejos os colossos que vacilavam e balançavam com o sono que os subjugava aqui e ali em meio às suas tarefas. Então, difusamente, viu que penetrara a sala de teto alto que abrigava a flor fóssil em sua trípode de cristal e metal escuro. Uma porta se abriu na pedra maciça da parede oposto quando foi impelido contra ela. Um instante depois, enquanto parecia cair em direção a uma câmara inferior, por entre massas prodigiosas de máquinas inomináveis, por sobre um disco giratório que zumbia infernalmente, então foi depositado de pé, com toda a câmara se ajustando em torno dele e o disco erguido à sua frente. O disco então parara de girar, mas o ar ainda reverberava com a sua vibração demoníaca. O lugar era como um pesadelo mecânico, porém, em meio à confusão de molas brilhantes e dínamos Haines contemplou a forma de Chanler, amarrado ereto, com cabos de aço, a uma estrutura de cavalete. Junto dele, em uma posição ainda firme e de pé, estava o gigante Ta-Vho-Shai e imediatamente diante dele se reclinava uma Coisa incrível cujos outros membros e partes se perdiam no emaranhado da maquinaria.

De certa forma, a Coisa era como uma planta gigantesca, com inumeráveis raízes, pálidas e inchadas, que ramificavam de um caule bulboso. Este, parcialmente fora de vista, era coroado de uma taça rubra como uma flor monstruosa, e da taça crescia uma figura élfica, cor de pérola, de formas extremamente belas e simétricas, uma figura que voltou uma face liliputiana para Haines e falou, com a voz sonora de Vulthoom:

— Você venceu por ora, mas não tenho nenhum rancor contra você. Culpo meu próprio descuido.

A Haines a voz parecia um distante trovão ouvido por alguém que está adormecendo. Em um esforço extremo, cambaleando como se fosse cair, chegou até Chanler. Lívido e magro, com uma expressão facial que intrigou Haines brevemente, Chanler o encarou desde o cavalete sem dizer nada.

— Eu… quebrei as Garrafas — Haines ouviu a própria voz com uma sensação de irrealidade sonolenta. Parecia ser a única coisa a fazer… já que você tinha passado para o lado de Vulthoom.

— Mas eu não tinha concordado — Chanler respondeu devagar. Era tudo um engodo… para te enganar e te fazer concordar… E estavam me torturando porque eu não queria aceitar.

A voz de Chanler foi se afastando, e parecia que ele não conseguia mais dizer nada. Subitamente a dor e a fraqueza começaram a desaparecer de sua expressão, como se apagadas pela chegada gradual do sono.

Haines, laboriosamente tentando compreender através de seu próprio sono, percebeu um instrumento de aparência maligna, como um ferrão de muitas pontas, seguro por entre os dedos de Ta-Vho-Shai. Formando um arco em torno das pontas afiadas havia uma incessante corrente de fagulhas elétricas. O peito da camisa de Chanler tinha sido rasgado e a sua pele estava gravada com pequenas marcas azuis ou roxas, do queixo ao diafragma; marcas que formavam um padrão diabólico. Haines sentiu um horror vago e irreal.

Através do Letes que se fechava em torno de seus sentidos cada vez mais ele percebeu que Vulthoom tinha falado, e após um tempo ele pareceu entender o sentido das palavras:

— Todos os meus métodos de persuasão falharam. Mas isso é pouco importante. Vou ceder ao sono, embora eu pudesse permanecer desperto se eu quisesse, desafiando os gases com a minha ciência superior e a minha força vital. Vamos dormir profundamente… e mil anos não são mais do que uma noite para mim e para os meus seguidores. Para vocês, cujas vidas são tão breves, eles se tornarão eternidade. Logo vou despertar e retomar os meus planos de conquista… e você, que ousou interferir, estará então estendido diante de mim, apenas um pouco de poeira… e a poeira será varrida.

A voz parou, e pareceu que o ser élfico começara a balançar sobre a monstruosa copa vermelha. Haines e Chanler se viam através de uma crescente e oscilante turvação, como se uma névoa cinzenta se erguesse entre eles. Havia silêncio por toda parte, como se os maquinismos daquele Tártaro tivessem parado e os titãs tivessem interrompido seus trabalhos. Chanler relaxou no instrumento de tortura e as suas pálpebras caíram. Haines cambaleou, caiu e se estendeu imóvel. Ta-Vho-Shai, ainda agarrando seu instrumento sinistro, repousava de pé como um gigante mumificado. O sono, como um mar silencioso, tinha preenchido as cavernas de Ravormos.

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3 thoughts on “Tradução: Vulthoom (C.A. Smith)

  1. Vulthoom – Clark Asthon Smith | Leituras Paralelas

  2. Parabéns pela tradução!
    Sei o quanto é difícil traduzir, pois também me enveredo por esses caminhos tortuosos traduzindo contos e livros pouco conhecidos ou ignorados na nossa língua inculta e bela.
    Já traduzi Metropolis, algumas coisas de Phillip K. Dick e atualmente estou concluindo a tradução de A Desagradável Profissão de Jonathan Hoag de Robert A. Heinlein.
    Bom trabalho, e continue assim! Lembre-se que sempre existirá alguém que ficará muito agradecido e será muito beneficiado com seu esforço!

  3. Vulthoom – Clark Ashton Smith « Exilado dos livros

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