Ninguém Tem o Direito de Nunca Ser Ofendido

“O Romance da Universitária Otária” foi um grande sucesso da Banda Blitz nos anos 80. Falando sobre uma jovem sem rumo na vida que se envolve com um fala-mansa chamado “Abreu”, a canção incluía uma estrofe que ficou marcada para mim até hoje: “Todo mundo quer ir pro céu, mas ninguém quer morrer.” A frase foi usada para ironizar a Aparecida (a tal universitária) que escolhia cursos como quem escolhe roupas e pensava mais nos diplomas do que nos estudos. A frase também serve para […]

O Nascimento de Filipe C. Pinto

Tudo começou nos tempos do Orkut. Eu já havia utilizado alguns perfis falsos (“fakes”) para postar naquela plataforma algum conteúdo mais polêmico. Alguns desses perfis eram verdadeiramente lendários, como o “Sumo Sacerdote da Silva”, suposto líder da “Igreja Orkutista da Salvação”, e a depravada “Sofista Loura” (uma alusão a Sophia Loren), que publicou na “Novos Escritores do Brasil” um texto escatológico produzido a partir do [Bonsai Story Generator](http://www.critters.org/bonsai). Filipe C. Pinto foi o ponto culminante das minhas trollagens orkutianas. Percebendo que havia certa resistência à […]

Sobre Inveja e uma Crítica “Razoável”

Minha recente apreciação, ou melhor, “depreciação”, da obra do tal Raphael Draccon atraiu pelo menos uma contestação. Segundo certo comentarista no blog LitFanBR, que reproduzira minha postagem, a crítica que eu fiz à obra de Draccon teria sido motivada pela “inveja”, entre outras considerações. Este post não pretende desqualificar os citados comentários, mas apenas esclarecer alguns pontos levantados, em alguns casos até admitindo a validade do que o comentador pontuou. Sim, você ESTÁ com inveja dele. Seja por ele ganhar dinheiro ou pelos livros dele […]

Aventuras do Ogro em Sampa

Depois de semanas anunciando que apareceria no lançamento dos livros da Caligo Editora, vi-me gentilmente forçado pelas circunstâncias a comparecer, superando minha verdadeira paúra de cidade grande. O bugre aqui, como ninguém deve saber, é nativo da roça com orgulho, do tipo que se espanta com o burburinho de Juiz de Fora e que, em outros tempos, ao ouvir o noticiário policial das rádios Record e Globo, jurava diante da mãe que nunca poria os pés em São Paulo ou no Rio de Janeiro. Mas […]

Os Jovens Johnnies, Reexplicando

Vou tentar de novo explicar minha posição sobre autores brasileiros que escrevem obras ambientadas no “estrangeiro”, porque as pessoas acham que eu, muitas vezes, a expresso de forma preconceituosa contra os novos autores. O exotismo é uma possibilidade, mas não é uma necessidade. Se você acha que vai ficar legal escrever uma obra ambientada em outro país, vá fundo. Só vai ser problema se ficar ruim. Mas se você acha que “deve” ambientar sua história em outro país por algum motivo, então aí tem alguma […]

Desafio Entre Contos: Bruxas

Este mês o desafio de ficção promovido pelo site EntreContos me atraiu muito, por se tratar de um tema que sempre me fascinou: bruxas. Tão excitado eu fiquei que logo parti a escrever e, quando dei por mim, construíra “A Virgem do Sabá“, baseado em uma sinopse deixada por Clark Ashton-Smith. Infelizmente esta história ficou longa demais para o desafio e tive de escrever outra! Da segunda vez, mantive a inspiração no mesmo universo ficcional (de Lovecraft, Ashton-Smith e outros) e recorri temas extraídos de […]

A Perdição do Homem (Beatrix e Jeannelynne)

“Ó amiga e companheira da noite, ó tu que te regozijas no ladrar dos cães e no sangue derramado, que perambulas por entre as sombras entre as tumbas e trazes terror aos mortais! Gorgo! Mormo! Lua de mil faces, contempla favoravelmente os nossos sacrifícios”― H. P. Lovecraft (em “O Horror em Red Hook”) A porta se fechou e Beatrix suspirou o temporário alívio da primeira noite. Mas não se recostou para dormir, sabia-o impossível. Como recostar a cabeça em um travesseiro antecipando que o segundo […]

Suzanne, Cara ou Coroa

Acabo de saber pela internet que Suzanne Richthofen, presa há doze anos pela morte de seus pais, escreveu à Juíza de Execuções Penas que lhe autorizou o regime semi-aberto um pedido de adiamento de sua progressão de pena. O simbolismo do ato, em suas circunstâncias específicas, me tornou pensativo. São várias as camadas de perguntas que me apareceram ao julgar, mentalmente, o que pode andar pela cabecinha da moça. Eu quase tenho pena dela, daí me lembro que ela não cometeu um crime qualquer. Então […]

Técnicas Esquecidas de Escrita

> Em Homenagem a Sérgio Ferrari, do blog [Astromiau](http://astromiau.blogspot.com.br/2014/08/tecnicas-esquecidas-de-escrita.html). ## Dadaísmo Liquefeito Se o romeno Tristan Tzara recortava palavras do jornal para sorteá-las aleatoriamente e assim produzir poesia, o mineiro Walito Girão batia páginas de diários em um liquidificador, bem rapidamente, e depois despejava o emaranhado sobre uma cartolina. Tinha uma grande vantagem sobre o método dadaísta de Tzara, pois não apenas permitia descobrir inusitadas relações entre palavras, como também criava as mais estranhas relações entre letras e sílabas. A obra do extraordinário poeta ficou […]

A Heresia da Pizza Caseira

A pizza é um alimento dos deuses. Não digo isto porque seja excepcionalmente deliciosa, mas porque são necessários atributos (e equipamentos) verdadeiramente divinos para prepará-la. Equipamentos que só existem em templos sagrados onde vermelho e verde combinam. Tentar organizar um culto doméstico desta iguaria é um sacrilégio recompensado com desastre. A humanidade desenvolveu várias tentativas de retirar a pizza de seu caráter sacro e permitir o preparo profano, mas todas estas tentativas redundaram em vão. A menos que você tenha um sacerdote pizzaiolo na família […]

A Dama Pé de Cabra

> Conforme promessa antiga, eis minha primeira tentativa de transformar a antiga lenda portuguesa da Dama Pé de Cabra em um conto de terror ao gosto moderno. Preservei o tratamento em segunda pessoa para dar um ar medieval ao texto (que é, de fato, ambientado na Idade Média), e procurei evitar, ao máximo, toda modernização que violasse o espírito do original. Sendo assim, as personagens do sexo feminino são deixadas em segundo plano a ponto de nem terem nome. Esta versão, porém, expande a história […]

Redrum — Contos de Crime e Morte

A primeira **coletânea** de que participei em muito tempo, e “abre os trabalhos” com minha nova editora. Para esta coletânea, produzi um texto original chamado “A Noiva Liberdade”, que se baseia em uma ideia retirada de um poema de Castro Alves. Pelo conceito da coletânea, todas as histórias deveriam ser sobre crimes de morte, mas eu, para não cair no lugar-comum, inventei um tipo insidioso de crime, que dificilmente seria punido pela justiça dos homens. “Redrum” é uma palavra inventada por Stephen King, no romance […]